Em um país no qual a maior parte da população se autodeclara parda ou preta, e em que as mulheres são maioria, mas, contraditoriamente, estão sub-representadas nos espaços de poder, promover a formação desse público é, além de reparação histórica, possibilitar a equidade de gênero, classe e etnia. Invisibilizada ao longo dos séculos, a presença feminina foi (e é) essencial para a construção da nossa cultura, com base nas tradições e ancestralidades, sobretudo das mestras do saber, verdadeiros patrimônios imateriais do Brasil, Nordeste e Sertão.

É com base nessa concepção de ideias que nasce o projeto de extensão Coco é reza, corpo é raiz: saberes ancestrais na formação docente, proposto pela professora do Campus Jacobina do IFBA Carla Côrte no âmbito da Escola Nacional Nego Bispo. 

Voltada, majoritariamente, para mulheres negras, quilombolas e  indígenas, estudantes de licenciatura e profissionais da Educação Básica, a formação conta com a participação da multiartista Aurivone Ferreira (mestra do saber); da profa. dra. Cláudia Vasconcelos (Uneb), na sua assessoria; de Jailza Gomes (estudante da Licenciatura em Computação do IFBA) e Milena Carvalho (comunicóloga e educadora popular), ambas como assistentes da coordenação.


"O projeto nasceu do lugar do desejo, de me reconhecer como sujeito desejante que se move pelo encontro, pela escuta atenta e pela produção de sentidos partilhados. Não se trata apenas de uma prática extensionista, mas de um movimento ancorado em experiências anteriores. Conheço Vone de outros encontros, atravessados pela arte culinária e pela escuta musical, espaços nos quais o saber se apresenta de forma viva, sensível e orgânica. A minha aposta é na extensão como ponte viva entre saberes, territórios e sujeitos. Há, nesse movimento, um compromisso ético e político com a nossa responsabilidade social como instituição educacional: reconhecer, valorizar e aprender com conhecimentos historicamente marginalizados, não como objeto de estudo, mas como elemento constitutivo dos processos formativos. Coco é reza, corpo é raiz se constitui como confluência de desejos, saberes e práticas que ampliam os modos de fazer educação", destaca a docente.

Aula Inaugural

Na noite dessa quarta-feira, 18, mesmo dia escolhido para a campanha institucional 18M IFBA: pela educação contra o feminicídio, o auditório do Campus Jacobina do IFBA foi palco de (re)encontros e musicalidade. A aula inaugural do projeto extensionista reuniu a equipe coordenadora, além de gestores do IFBA e cursistas. Na ocasião, foi apresentada a proposta político-pedagógica da formação, bem como o grupo executor. Também foi um momento de acolhimento dos(as) cursistas, sob o ritmo do coco, quando cada um/a pôde se apresentar e compartilhar expectativas em relação ao projeto. 

Para Andrea Silva, "mulher preta, artesã, mãe, filha, tia e amiga, formada em Matemática e Pedagogia, especialista em Neuropsicopedagogia", o curso é sinônimo de aprendizado e valorização dos saberes que vêm da nossa história e ancestralidade. "Para mim, aprender, ensinar, existir e resistir caminham juntos. Atualmente atuo na coordenação de  faculdade privada. Venho construindo minha trajetória na educação com compromisso com uma prática cada vez mais inclusiva. Tenho também uma relação especial com o IFBA, pois minha filha faz parte da instituição, o que me aproxima ainda mais deste espaço. Foi por meio das redes sociais do Instituto que tive acesso ao curso. Minhas expectativas são aprender mais, ampliar meu olhar e trazer esses conhecimentos para a minha prática. A aula inaugural foi muito significativa, trouxe reflexões importantes e me fez sentir parte de algo maior. Acredito que tudo o que vou aprender aqui contribuirá diretamente para a minha rotina profissional, principalmente para tornar minha prática mais sensível, humana e conectada com a realidade dos estudantes", compartilha.  

De acordo com Lucas Mendonça, egresso do campus e um dos poucos homens da turma, a necessidade de continuar aprendendo e fortalecendo sua atuação na educação foi o motivo para se inscrever no curso. "Minha relação com o IFBA começou em 2014, quando ingressei no curso técnico em mineração, e desde então carrego esse vínculo com a instituição.

Sou pedagogo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e hoje atuo no Fóum Territorial de Educação do Campo do Piemonte da Diamantina, em grupo de pesquisa da Uneb e na Gestão de Aprendizagem do Núcleo Territorial de Educação (NTE - 16),  buscando aproximar o ensino da realidade dos estudantes. O projeto me chama atenção justamente por esse olhar mais enraizado, que dialoga com território, identidade e vivência. Espero que essa experiência me ajude a repensar práticas, ampliar minha visão e contribuir de forma mais consciente para o meu trabalho do dia a dia", comenta. 


Nas palavras de Aurivone Ferreira, participar do projeto de extensão é um momento de realização:  "Para mim, ser reconhecida como mestra do saber e compartilhar, com outras mulheres, o conhecimento adquirido durante esse anos me deixa muito feliz. E mais feliz por encontrar pessoas com histórias muito parecidas com a minha. Por isso, acho que esses curso será de muita troca de saberes e vivências! Estamos preparando encontros bem dinâmicos, compreendendo o corpo como parte fundamental dessas vivências; a musicalidade do coco e seus instrumentos como fundamento ancestral. Ao longo dos encontros presenciais, teremos oficinas de percussão e trabalharemos composições de minha autoria. Nossa ideia é que os participantes possam utilizar essas outras formas de expressão artística, conhecimento e leitura de mundo em sala de aula", pontua. 

Metodologia do Curso

A formação será híbrida e inclui certificação, consistindo em 60 horas-aula, sendo 50% de forma presencial e 50% remotamente, por meio do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA). Os/as cursistas serão contemplados/as com três parcelas de uma bolsa no valor de R$ 200 (duzentos reais), totalizando R$ 600 (seiscentos reais).  O próximo encontro presencial está previsto para o dia 25 deste mês, das 18h às 22h, quando acontecerá a oficina Corpo e Ancestralidade: Movimentos de Presença e Pertencimento. 

Quem foi Nego Bispo?


Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nego Bispo (1959–2023), foi um renomado pensador quilombola, escritor, poeta e militante político. Piauiense, destacou-se pela defesa dos saberes ancestrais, elaborando conceitos como contracolonização na contramão do modelo capitalista e eurocêntrico. Foi professor convidado da Universidade de Brasília (UnB),  e atuou na Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas). Faleceu em 2023, aos 63 anos. Celebrando a sua luta, a Escola Nacional Nego Bispo tem por finalidade contribuir para o cumprimento das Leis n˚ 10. 639/2003  e n˚ 11.645/2008 - que tornam obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio -, e da Portaria MEC n˚ 470/2024 - que institui a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola - PNEERQ. O objetivo é possibilitar a atuação de Mestras e Mestres de Saberes Tradicionais no ensino, pesquisa e extensão, de modo a garantir o pluralismo de ideias, de concepções pedagógicas e epistemológicas; fortalecer a produção de conhecimentos tradicionais em interação com modelos contextualizados e não-eurocêntricos; fomentar o protagonismo dos sujeitos, de trajetórias e conceitos dos territórios, visando à alteração dos processos históricos de invisibilização, bem como enfrentar o racismo nas instituições de ensino.  


 "Ao dançar e cantar, produz-se conexão com a sua própria história e existência, rompendo com os séculos de silenciamento e dominação que incidiram sobre os corpos femininos, em especial os corpos negros e indígenas, historicamente controlados pela ciência, pela religião e pelo Estado. Entendemos a música e a dança como dispositivos pedagógicos e formativos, capazes de promover o autoconhecimento, o fortalecimento das identidades e a valorização dos saberes tradicionais. Por meio dos gestos, das batidas e dos cantos do coco, nosso curso convida à vivência de uma pedagogia do corpo, da voz e da ancestralidade, reconhecendo nas artes e nos ofícios tradicionais caminhos para a construção de novas formas de aprender, ensinar e existir. Será um reencontro com os saberes corporais, compreendidos como território de memória, cura e resistência", destaca trecho do projeto. 

IFBA