Com propriedades que superam os 10 mil hectares e faturamentos bilionários, grandes grupos transformam o Cerrado em um "Vale do Silício" do campo; especialistas e produtores, em entrevista ao A TARDE, explicam como a gestão estratégica e a inovação aceleram a produtividade na nova fronteira global de grãos.

No horizonte do Matobipa — a vasta região que integra os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — o termo "fazenda" já não descreve com precisão a realidade do campo.

O que se vê hoje são verdadeiras cidades agrícolas. Com áreas contínuas que ultrapassam os 10 mil hectares, essas propriedades operam sob um ritmo ditado pela agricultura de precisão, drones e sistemas de gestão que fariam inveja a qualquer indústria urbana.

A ascensão dessa região, que em 2025 registrou a safra recorde de 12,8 milhões de toneladas de grãos apenas na Bahia, não ocorreu por acaso. O diferencial não é mais apenas a terra disponível, mas a capacidade de combinar escala com tecnologia de ponta.

A virada de chave: gestão e mentalidade de um pioneiro. Para o empresário Odacil Ranzi, pioneiro que desbravou o Oeste baiano na década de 80, o salto de produtividade veio de uma mudança interna.

"Essa transformação foi acontecendo conforme a gente foi entendendo que produzir bem não era mais suficiente, era preciso gerir bem", afirma Ranzi, ex-presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) e sócio do Grupo Passo Fundo.

Ele recorda que, no início, a ocupação era baseada na "coragem". Hoje, o cenário é outro.

"Quando passamos a tratar a propriedade como uma empresa, com planejamento, controle e decisões baseadas em informação e pesquisa precisas, ela deixou de ser apenas produtiva e passou a ser estratégica. Uma fazenda bem estruturada funciona como uma verdadeira organização", destaca o líder setorial.

Os gigantes do campo

Três nomes personificam essa nova era de escala e sofisticação no MATOPIBA:

1. O poder logístico do Grupo Risa (GEES S/A)

Com sede em Baixa Grande do Ribeiro (PI), a holding faturou R$ 2,14 bilhões em 2023, consolidando-se como a única piauiense entre as 500 maiores do Brasil.

O diferencial é a verticalização: o grupo opera uma frota exclusiva de mais de 200 tritrens para garantir que a produção de seus 45 mil hectares chegue ao Porto de Itaqui (MA) sem os gargalos que assolam outros produtores.

2. A escala financeira de Ricardo Faria

O empresário, conhecido como o "Rei do Ovo", expandiu sua atuação para os grãos através da Insolo e Terrus. Hoje, ele controla cerca de 230 mil hectares plantados no MATOPIBA. Faria integra a produção de soja e milho diretamente com sua demanda avícola (Granja Faria), fechando um ciclo econômico de alta eficiência.

3. A industrialização do Grupo Progresso

Liderado por Cornélio Sanders, o grupo cultiva 95 mil hectares e está elevando o nível do jogo com a BrasBio, em Uruçuí (PI). Com investimento de R$ 1,18 bilhão, a usina de etanol de milho deve iniciar operações em julho de 2026, transformando o Piauí em autossuficiente no combustível e agregando valor ao grão dentro da própria região.

Ciência aplicada ao solo

A tecnologia, contudo, não vive apenas de máquinas gigantes. O gerente de agronegócio da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), fundada em 1990 e com sede em Barreiras, Aloísio Júnior, explica que a "tecnologia invisível" — aquela aplicada no manejo do solo — é o que garante a resiliência.

"O manejo adotado pelos produtores, aliado ao uso de materiais genéticos de alto desempenho, tem sido fundamental para ampliar a eficiência produtiva e garantir estabilidade mesmo em cenários climáticos desafiadores", detalha.

Aloísio aponta que práticas como o plantio direto e a nutrição equilibrada das plantas são as verdadeiras responsáveis por manter o MATOPIBA competitivo globalmente.

"Esse conjunto de estratégias, somado ao uso intensivo de biotecnologia e ferramentas de agricultura de precisão, tem garantido competitividade à região", completa.

Desafios fora da porteira

Apesar do sucesso dentro das cercas, o futuro do MATOPIBA ainda encontra obstáculos geográficos. Odacil Ranzi alerta que a infraestrutura precisa acompanhar o ritmo do campo.

"A produção cresceu rápido, com tecnologia e eficiência, mas a infraestrutura ainda precisa acompanhar esse ritmo. O futuro passa pela industrialização e pela melhoria da logística e conectividade", pontua o empresário.

Enquanto a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL) e a Ferrovia Norte-Sul avançam a passos lentos, os produtores continuam investindo em "ilhas tecnológicas".

O objetivo é claro: consolidar o MATOPIBA não apenas como o celeiro do Brasil, mas como o exemplo máximo de que a inovação é o único fertilizante capaz de garantir o crescimento sustentável a longo prazo.

A Tarde