Durante mais de quatro anos, uma rotina de cobranças, críticas e constrangimentos que, segundo a denunciante, ultrapassaram as relações normais de trabalho. Em depoimento de 27 páginas prestado à Comissão de Sindicância da Secretaria de Turismo da Bahia (Setur), uma servidora afirmou que chegou a deixar o Gabinete “aos prantos” após ouvir repetidas críticas ao seu desempenho. “A sensação que eu tinha era que nada que eu fizesse estava bom o suficiente, o que me deixava sempre numa autocobrança desumana”, diz trecho do documento, ao qual o CORREIO teve acesso com exclusividade.

A denúncia de assédio moral é contra a chefe de Gabinete, Giulliana Brito do Espírito Santo Mercuri, e também é apurada pela Corregedoria-Geral (CGR), órgão ligado à Secretaria da Administração do Estado (Saeb), e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Pelo menos outras duas servidoras também denunciaram Giulliana pelo mesmo motivo.

O relato, prestado no dia 28 de julho, reúne acusações de críticas públicas ao trabalho, desqualificação profissional, ameaças relacionadas à permanência no cargo e cobranças fora do horário regular. A denunciante afirma que começou a trabalhar no Gabinete em 2021, a convite de Giulliana.

Ela conta que havia informado previamente que precisava deixar a repartição às 18h para buscar a filha na escola, mas passou a ser cobrada por disponibilidade além desse horário. “No entanto, durante o exercício das minhas funções de assessoramento no Gabinete, ouvi em alguns momentos falas da Sra. Giulliana, no sentido de que ela não teria que se adaptar aos meus horários para despachar, e que eu sim deveria estar disponível de acordo com a necessidade do Gabinete”, diz o depoimento.

A servidora também afirma que, apesar das cobranças, mantinha uma rotina de dedicação ao trabalho. “Cumpre registrar que eu sempre cumpri o meu horário, chegando no horário correto e muitas vezes ficava inclusive no horário do almoço, para desempenhar as funções que eram a mim atribuídas”, declarou à sindicância. Na sequência, relata que ouvia da chefe de Gabinete que não prestava o assessoramento adequado e que “não vestia a camisa do Gabinete”.

“Bypass”

Outro ponto relatado envolve orientações que, segundo a denunciante, eram contraditórias. Ela afirma que era orientada a despachar diretamente com o secretário, Luís Maurício Bacellar Batista, mas, quando seguia a determinação, era acusada de dar “bypass” na chefe — expressão usada para indicar que estaria passando por cima da autoridade dela.

“Ocorre que ao mesmo tempo em que a Chefe de Gabinete solicitava que os Assessores despachassem diretamente com o Secretário, quando eu seguia a referida orientação a mesma mencionava que eu estava dando ‘bypass’ na mesma, que eu estava querendo exercer as funções dela”, diz outro trecho do depoimento.

As críticas, segundo a servidora, também eram acompanhadas de comentários feitos diante de colegas. Ela relata que, quando defendia outros funcionários, ouvia “lá vem a defensora”. Em outro episódio, afirma ter escutado a frase “Hoje ela fez o trabalho direito”, que classificou como deboche. A denunciante afirma ainda que as situações eram tão frequentes que um colega chegou a dizer que ela tinha “síndrome de Estocolmo”, numa referência, segundo seu relato, ao fato de continuar suportando as sucessivas críticas e constrangimentos.

Ameaças

Na sindicância, a denunciante afirma ainda ter sido alvo de ameaças relacionadas à permanência no cargo. “Com frequência, afirmava que eu ‘não vestia a camisa do Gabinete’, que ‘avaliava o papel dos assessores’ e que ‘quem mantinha o meu cargo era ela’, acrescentando, em tom de ameaça, que ‘não adiantava ir chorar para o Secretário’”, diz outro trecho do documento.

A servidora afirma que as situações tiveram impacto sobre seu bem-estar e relata ter passado a necessitar de acompanhamento médico e psicológico e de medicação para ansiedade. No depoimento, ela sustenta que o conjunto dos episódios — incluindo, segundo seu relato, exposição pública, desqualificação profissional e intimidação — caracteriza assédio moral.

Posicionamentos

Em nota, a Setur informou que criou uma Comissão de Sindicância para apurar os fatos da denúncia, “garantindo a ampla defesa e o direito ao contraditório”. “O prazo para a conclusão dos trabalhos é de 30 dias úteis, podendo ser prorrogado por mais 30 dias. A chefe de Gabinete segue no exercício das funções, enquanto a Comissão trabalha com total independência e sem qualquer interferência”, diz a pasta.

A CGR instaurou, em 30 de julho, uma “Investigação Preliminar para apurar denúncia de assédio moral envolvendo a servidora Giulliana Brito do Espírito Santo Mercuri”. “Por se tratar de procedimento sigiloso e preliminar, a investigação não implica antecipação de julgamento ou punição, cabendo à CGR concluir a apuração dos fatos e adotar as medidas pertinentes”, diz a nota.

O CORREIO aguarda o posicionamento do MPT. Nesta quinta-feira (20), a reportagem também procurou a chefe de Gabinete por telefone. Nesta quinta-feira (22), em uma das tentativas, um dos celulares de Giulliana foi atendido pela diretora de Qualificação e Segmentos Turísticos, Juliana Maura Queiroz Araújo, que se comprometeu a informá-la sobre o contato da reportagem. Até o momento, não houve resposta. O espaço segue aberto.

Correio