O trabalhador chinês que morreu após uma queda no canteiro de obras da BYD, em Camaçari, na última segunda-feira (19), foi identificado como Xiaoqing Huang. Ele tinha 48 anos e trabalhava na construção civil, contratado pela empresa terceirizada Open Building System Brasil.
O acidente aconteceu às 13h37, quando Hung, que trabalhava no telhado, caiu de uma altura de 13 metros. Um minuto antes, às 13h36, o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos Ueslei Santos da Silva tinha enviado um vídeo gravado no mesmo local, mostrando as condições de trabalho no Galpão 9. Também funcionário da BYD, ele é integrante da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio (Cipa) na empresa e tinha recebido queixas de colegas metalúrgicos sobre o local, que está em construção. O vídeo tem 29 segundos.
"Um minuto depois, veio a acontecer a tragédia. Foi muito impactante para mim, porque nunca tinha presenciado nada assim", conta ele, em entrevista ao CORREIO, nesta terça-feira (20). Em seu celular, ele tem o registro da sequência de acontecimentos. Às 13h38, Silva já ligava para o serviço médico da empresa, que chegou com uma ambulância cerca de 15 minutos depois.
Naqueles primeiros momentos após a queda, Xiaoqing Huang estava consciente. Havia cerca de 30 pessoas mais perto de onde tudo aconteceu, entre metalúrgicos e profissionais da construção civil. "Pedimos para ele continuar parado até a chegada do socorro. Logo ele começou a perder os movimentos, mas manteve os olhos abertos. Ele saiu do local ainda com sinais vitais, mas as informações que chegaram para a gente foi que ele chegou ao (Hospital) Santa Helena direto para a massagem cardíaca", conta o diretor do sindicato.
Segundo Silva, os trabalhadores chineses que trabalham na fábrica da BYD, na parte da construção civil, são uma espécie de 'faz tudo'. "O cara que coloca bloco coloca o teto, o que faz operação de linha também opera empilhadeira. Esse, especificamente, não sei dizer o que fazia, porque não conhecia".
Huang não falava português, mas outro colega chinês fazia a tradução e se comunicava com ele. Na fábrica, não é incomum que os chineses recebam nomes brasileiros aqui. O colega que falava português, identificado como 'Jorge' chegou a acompanhá-lo ao hospital.
"Aconteceu tudo muito rápido. Eu tinha acabado de enviar o relatório no grupo da Cipa e citei o risco de objetos caírem nos operadores. Um minuto depois, o trabalhador chinês caiu", narra Ueslei Santos da Silva. A Cipa tinha sido acionada justamente porque a fábrica 9 está em construção.
Desova
Lá, de acordo com ele, teria começado a acontecer um processo que não deveria ocorrer naquele local - a chamada desova. É assim que é chamado o processo de descarga de contêineres que vêm com carros e peças de carros. O local não teria todas as paredes, nem banheiros próximos. Além de distante, essa fábrica não teria nem mesmo água suficiente para todos os trabalhadores.
"O lugar não é adequado para trabalho. Quando cheguei e vi as condições de trabalho, a gente interrompeu o serviço dos trabalhadores da BYD. Mas o trabalho da construção civil é um trabalho que não para", explica o diretor do sindicato. "A gente avaliou também o risco de queda e não imaginei que uma pessoa viesse a cair". Os trabalhadores estavam no telhado instalando uma manta térmica quando o acidente aconteceu.
Também nesta terça-feira, o Ministério Público do Trabalho (MPT) informou que abriu um inquérito para investigar a morte do trabalhador. O órgão foi acionado pelo Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de Camaçari, que também notificou a Polícia Civil, a Superintendência Regional do Trabalho e o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador.
"Tivemos hoje a reunião com a BYD e eles informaram que estão dando toda a atenção à família e à questão do translado. A gente pediu maior atenção na questão da segurança e a obrigação da Cipa e da direção do sindicato para fiscalizar (as condições de trabalho), porque a empresa coloca muita dificuldade", explicou o presidente da entidade, Júlio Bonfim.
Segundo Bonfim, somente na metalurgia, a BYD tem 8,6 mil funcionários. Na construção civil, a estimativa é que fique em torno de quatro mil pessoas. Ele critica o fato de a empresa tentar manter a operação de metalurgia ao mesmo tempo em que finaliza a construção de um prédio - ou seja, o galpão 9.
Também na noite da última segunda, outro trabalhador sofreu um acidente - um metalúrgico, na divisão 2, teve que ser encaminhado ao Hospital Santa Helena depois de receber uma descarga elétrica.
"Graças a Deus, ele está fora de perigo, está se recuperando, mas deve ter alta. Só está sentindo agora dor de cabeça", diz. "Mas a empresa está montando carros para depois fabricar carros. Ela está trocando os pneus a 120 km/h. Isso, de certa forma, é uma questão de falha no processo de segurança, porque você está tendo construção civil e montagem de veículos ao mesmo tempo. É preocupante".
Residência
As informações iniciais indicavam que o trabalhador chinês não usava todos os equipamentos de proteção individual (EPIs). "A parte mais importante é o cinto, que você coloca na linha de vida. A outra parte fica em você; isso, ele não tinha. Ele estava com uma corda que parece um barbante e ela estava solta em cima. É um costume que eles têm ali na obra de fazer dessa forma. Eles esquecem, não fazem o procedimento correto. Temos vários registros disso. Infelizmente, uma cultura que a gente não conseguiu trocar", diz o diretor do Sindicato dos Metalúrgicos Ueslei Santos da Silva.
Não há informações sobre quando Xiaoqing Huang chegou ao Brasil. No entanto, o CORREIO localizou duas autorizações de imigração publicadas no Diário Oficial da União pelo Ministério da Justiça. A primeira solicitava um prazo de um ano para ele e a requerente era a própria BYD Auto do Brasil Ltda. A autorização de residência foi publicada em 20 de junho de 2024. Assim, ele estaria vivendo no país há pelo menos dois anos.
Já no dia 13 de outubro deste mês, houve mais uma autorização de residência deferida pelo ministério. Dessa vez, o processo era de dois anos e a requerente era a empresa Open Building Brasil. Xiaoqing Huang fez aniversário no último dia 4.
A BYD lamentou a morte e informou que as circunstâncias estão sendo apuradas. “A BYD e a empresa prestadora de serviços lamentam profundamente o ocorrido e manifestam solidariedade aos familiares, amigos e colegas de trabalho. As circunstâncias do acidente estão sendo apuradas, e todo o apoio necessário está sendo prestado à família”, declarou a empresa em nota.
A reportagem não localizou o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, Montagem e Manutenção Industrial de Camaçari e Região (que representa os trabalhadores como Huang), nem a empresa Open Building System Brasil. O espaço segue aberto para manifestação.
Correio

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