O relato do influenciador Felca sobre a convivência com a fobia social e as marcas deixadas pelo bullying na escola reacendeu o debate sobre os impactos da violência psicológica na infância e na adolescência. A experiência também levanta uma questão importante para pais, cuidadores e educadores: como diferenciar a timidez de um transtorno de ansiedade que pode comprometer a rotina e as relações sociais?

A psicóloga Myriam Albers, da Clínica Maia, explica que a timidez é uma característica da personalidade e não impede necessariamente a pessoa de estudar, trabalhar ou participar de atividades sociais. Já o Transtorno de Ansiedade Social, conhecido como fobia social, envolve medo intenso e persistente de ser julgado, humilhado ou rejeitado. “Já a fobia social é paralisante. O indivíduo sente um medo intenso, irracional e persistente de ser julgado, humilhado ou rejeitado. Esse pavor o leva a evitar situações cotidianas, gerando um prejuízo real e severo no seu desenvolvimento”, afirma a especialista.

Como diferenciar timidez de fobia social?

Uma pessoa tímida pode sentir desconforto ao conhecer gente nova, falar em público ou participar de uma festa, mas costuma conseguir enfrentar essas situações. Na fobia social, o medo pode ser tão intenso que leva à esquiva de compromissos, atividades escolares, apresentações e encontros, com prejuízos à vida cotidiana.

A diferença, portanto, não está apenas em ser mais quieto ou reservado, mas na intensidade do medo, na frequência com que ele aparece e no impacto sobre a rotina. A avaliação profissional é importante para identificar o que está acontecendo e indicar o acompanhamento adequado.

Bullying pode afetar a vida adulta

O bullying pode contribuir para o desenvolvimento de insegurança, medo de julgamentos e dificuldades de interação social. Quando a escola se torna um ambiente de humilhação ou ameaça, a vítima pode passar a associar o convívio com outras pessoas à possibilidade de sofrer novas agressões.

Essas experiências podem ter efeitos duradouros, embora não levem necessariamente ao desenvolvimento de fobia social em todas as vítimas. Por isso, reconhecer e interromper situações de violência na escola é importante para proteger a saúde emocional de crianças e adolescentes.

Sinais de alerta em crianças e adolescentes

Pais, cuidadores e educadores devem observar mudanças persistentes no comportamento, especialmente quando o jovem começa a evitar situações que antes faziam parte da rotina.

Entre os sinais que merecem atenção estão:

  • Recusas frequentes em ir à escola, sem explicação clara;
  • Evitação de apresentações, trabalhos em grupo e outras atividades sociais;
  • Isolamento intenso e dificuldade de manter vínculos;
  • Medo excessivo de passar vergonha ou ser julgado;
  • Sintomas físicos em situações de exposição, como sudorese, tremores, taquicardia e náuseas;
  • Crises de choro ou sofrimento intenso antes de eventos sociais.

Esses sinais, isoladamente, não confirmam um diagnóstico. Quando são persistentes ou prejudicam a rotina, é importante buscar avaliação de um profissional de saúde mental.

Fobia social tem tratamento

Apesar de poder limitar a vida social, acadêmica e profissional, o Transtorno de Ansiedade Social pode ser tratado. A psicoterapia ajuda a pessoa a reconhecer pensamentos que alimentam o medo e a enfrentar gradualmente as situações que provocam ansiedade, com estratégias adequadas às suas necessidades.

“O caminho mais indicado é terapia com um profissional, pois ajuda o indivíduo a identificar pensamentos disfuncionais e a enfrentar, de forma gradual e segura, as situações que causam medo. Em muitos casos, o acompanhamento psiquiátrico com suporte medicamentoso também pode ser indicado”, explica Myriam Albers.

O apoio de familiares e educadores também é importante. Acolher o sofrimento sem minimizar o que a pessoa sente, evitar cobranças excessivas e procurar ajuda especializada pode contribuir para que crianças, adolescentes e adultos recuperem a confiança e ampliem sua participação nas atividades cotidianas.

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