A paisagem ao longo de extensas áreas na zona rural de Eunápolis, no extremo sul do estado, não deixa dúvidas quanto à devastação deixada pela ação humana. Áreas que um dia serviram para a pastagem do gado, fortalecendo uma indústria, hoje estão em estado de desmatamento e degradação do solo, com impactos sobre a fauna nativa. Nesse contexto, a Bahia aparece como um território estratégico para a implementação de projetos de recuperação ambiental, pelas condições favoráveis à restauração da Mata Atlântica, bioma que apresenta grande potencial de recuperação.
Para lidar com as consequências das mudanças climáticas, empresas de diferentes setores têm adotado uma postura resolutiva e estabelecido metas ambientais de curto e longo prazo para reduzir o impacto das emissões de gases de efeito estufa, principalmente as de dióxido de carbono (CO₂), envolvidas em suas cadeias produtivas.
Nesse cenário, investir capital e esforços na recuperação de grandes porções de terras baianas se torna um atrativo. O sul da Bahia reúne importantes características para receber investimentos em projetos de restauração ambiental. A disponibilidade de áreas que precisam ser recuperadas é um dos principais fatores. A localização também é um diferencial. O clima da região e o regime de chuvas são elementos que favorecem a recuperação dos solos, o crescimento de nova vegetação e a atração da fauna.
Além disso, a logística também é um ponto que torna Eunápolis uma região atrativa, pela proximidade de importantes cadeias produtivas e de fornecedores de insumos. “Você não está tão distante dos centros de produção de muda, de empresas prestadoras de serviço. Existe uma infraestrutura muito boa”, explica o biólogo especialista em ecologia e diretor de projetos da re.green, Miguel Moraes.
Empresas como a re.green, especializadas em restauração ecológica de paisagens em larga escala, atuam justamente nesse escopo: identificam áreas degradadas com potencial de recuperar a capacidade de regeneração, desenvolvem projetos e estruturam essas iniciativas para que os resultados ambientais também possam ser inseridos no mercado de carbono. Mais do que apenas plantar árvores em áreas desmatadas, os profissionais fazem uma análise completa do espaço, considerando as especificidades do bioma, a vegetação e a biodiversidade nativas, os sistemas hídricos e também as comunidades que habitam o seu entorno.
A re.green chega às terras baianas como parceira da Nestlé, uma das investidoras recentes no estado, que prevê um total de 2.000 hectares recuperados no sul da Bahia, com plantio e cultivo de 3,3 milhões de árvores nativas da Mata Atlântica.
Atualmente, o planejamento conta com duas fazendas em estágios distintos, totalizando cerca de 866 hectares. O mais recente é o Projeto Surubim, iniciado em meados de abril deste ano. No Gameleira, projeto mais antigo, que já acumula um ano e 10 meses de execução, são mais de 170 hectares de terra recuperáveis. Aproximadamente 170 mil árvores já foram plantadas por meio de plantio direto e semeadura no primeiro ano de parceria nas duas áreas. Até o final de 2026, novas fazendas serão adquiridas, aumentando em 1.500 hectares a área disponível para restauração ao longo dos próximos anos.
“O que nos motiva muito a fazer projetos como esse é o tamanho deles, a escala que a Nestlé pode dar num projeto como esse. Nós estamos falando de 3.3 milhões de árvores, de 2.000 hectares. É uma abrangência enorme que realmente pode fazer diferença numa região como essa”, expressa a gerente de sustentabilidade da companhia, Cecilia Seravalli.
Os projetos da Nestlé e da re.green na Bahia terão duração de pelo menos 30 anos, com a recuperação dos solos e, consequentemente dos corpos hídricos, plantio de árvores, monitoramento da biodiversidade e capacitação de comunidades de assentamentos vizinhos às terras, como forma alternativa de geração de renda. Ao longo desse período, a iniciativa tem potencial de gerar cerca de 880 mil unidades de carbono.
Mercado de carbono
A transformação de áreas degradadas em projetos de restauração florestal, além do ganho para o meio ambiente, resulta na geração de créditos de carbono, que entram em um mercado procurado por companhias que buscam reduzir ou compensar parte das emissões de gases de efeito estufa em suas cadeias produtivas, seguindo suas estratégias climáticas individualmente estabelecidas.
O crédito de carbono funciona como um certificado que representa a redução ou remoção de uma tonelada de dióxido de carbono da atmosfera. Atividades como reflorestamento, uso de energia solar ou eficiência energética, voltadas para a redução ou captação de gases de efeito estufa, podem gerar créditos que são comercializados para que outras empresas consigam atingir suas próprias metas ambientais.
No caso de Eunápolis, a recuperação ambiental faz com que árvores nativas como ingá-açu, capixingui, embaúba, pau-cigarra, boleira, pau-viola, pau-brasil e outras tantas cresçam nas áreas restauradas. A vegetação contribui para a captura de dióxido de carbono (CO₂), além de favorecer a recomposição dos processos naturais da Mata Atlântica.
“Você começa a ter um pouco de matéria orgânica e vê que já é um barro marrom. Não é aquela terra vermelha da estrada. Isso é um sinal de que estamos restabelecendo a saúde do solo. O pássaro traz uma semente de uma espécie nativa e, se não tiver um solo de qualidade, essa semente não vai germinar. Quando eu crio uma condição de floresta em restauração que permite o restabelecimento da saúde do solo, naturalmente aumento as chances e o potencial de germinação dessas espécies que vão chegar”, explicou Moraes.
A recomposição da Mata Atlântica representa não apenas o retorno da vegetação nativa, mas também a manutenção de serviços ambientais, como a proteção dos recursos hídricos, a conservação da biodiversidade e a contribuição para o enfrentamento das mudanças climáticas. Nesse processo, áreas antes degradadas passam a ser vistas também como espaços capazes de gerar benefícios ambientais e econômicos a longo prazo.
A repórter viajou a Eunápolis, no extremo sul da Bahia a convite da Nestlé e da re.green.
Correio

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